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EDNA TERESA FRANCISCO MACONGO
A Paixão de Infância que se Tornou Missão: Ensino, Confiança e o Impacto que Vai Além da Sala de Aula
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Edna Teresa Francisco Macongo, docente do ensino secundário numa instituição privada na província do Bengo, com mais de seis anos de experiência. Ensinar é, para ela, uma paixão que começou na infância e que foi crescendo até se tornar profissão — e missão.
Nesta entrevista, Edna fala sobre os alunos da 7.ª classe que não sabiam escrever o próprio nome e o que isso a obrigou a repensar, sobre a sala de aula como laboratório onde tudo é processado, e sobre a convicção de que o impacto de um professor não se mede apenas pelo que ensina — mas pelo que os seus alunos se tornam.
O que te trouxe ao trabalho que fazes na educação, e o que te mantém nele, apesar de tudo?
Edna Macongo: Na verdade, ensinar é uma paixão de infância. Sempre gostei de passar aos outros o que aprendo. Enquanto crescia, o meu ponto de vista sobre o ensino foi crescendo também — e foi então que comecei a pensar em tornar profissional o que sempre foi a minha paixão. Mantenho-me na educação porque a compreendo como uma missão e, como em toda a missão, há desafios — mas esses desafios não são entraves para continuar nela.
Ao olhar para o teu percurso na educação, que transformações no sistema testemunhaste que marcaram profundamente a forma como trabalhas hoje?
Edna Macongo: Gosto de observar os resultados do meu esforço nos meus estudantes — é o que realmente me marca. A motivação que tenho ao ensinar vem precisamente dos resultados satisfatórios que vejo neles. Penso que não há maior satisfação, dentro das minhas funções como professora, do que esta: ver o desenvolvimento de alguém e saber que participei nesse percurso. É isto que marca profundamente a forma como trabalho até hoje.
Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?
Edna Macongo: O momento que melhor representa o meu trabalho é, sem dúvida, o momento em que estou em sala de aula. É o momento mais produtivo do meu dia. Estar em sala de aula faz-me dar o melhor de mim — e é tão satisfatório quando consigo ver nos alunos aquilo que pretendia transmitir-lhes.
Há alguma mudança de orientação que chegou ao teu trabalho e que te obrigou a repensar completamente a forma como fazias as coisas? Conta-nos essa história.
Edna Macongo: Sim. Aconteceu com um grupo de alunos que recebi na 7.ª classe — em média, nove estudantes. Não sabiam sequer escrever os seus nomes. Quando descobri este facto, entrei em contacto com os encarregados e percebi que parte desses alunos vinha das zonas mais recônditas do país, e outros enfrentavam realidades familiares desfavoráveis ao prazer e à motivação nos estudos. Não dominavam a alfabetização — não porque nunca tivessem ido à escola, mas porque não tiveram bons orientadores. Foi então que senti a necessidade de mudar a dinâmica com eles: passei a dar aulas particulares com metodologias diferenciadas, experimentando um método e outro, até começar a observar resultados satisfatórios. Hoje, alguns deles já criam textos.
Quando a liderança muda no topo e novas prioridades chegam, como é que isso se reflecte concretamente no teu trabalho com os alunos, famílias ou comunidade?
Edna Macongo: Vejo a sala de aula como um biólogo ou químico vê um laboratório — é lá onde tudo é processado, é de lá que sai aquilo que é exigido. O biólogo fará de tudo para dar o que se pede, mas não abandonará a essência dos elementos. Da mesma forma, o professor pode mudar os métodos e os conteúdos, mas não pode abandonar aquilo que é prioridade para os seus alunos. O Estado tem as suas prioridades, a direcção da escola tem as suas, e o professor tem as suas. A mestria do professor está em conseguir cumprir todas essas prioridades sem perder de vista nenhuma delas.
Já viveste aquele momento em que uma nova directriz te pedia algo que sabias ser impossível nas condições reais do teu trabalho? Como resolveste?
Edna Macongo: Já sim — e aqui evoco o discurso da adaptação. É importante fazer até o impossível para colher os resultados que se desejam. Nessas situações, recordo a frase de Cortella: “Faça bem nas condições desfavoráveis em que te encontras, para que quando estiveres em boas condições faças melhor ainda.“
Há algo que aprendeste fazendo — sobre o que funciona, sobre como os alunos aprendem, sobre como as comunidades respondem — que nenhum manual ou orientação oficial conseguiria ensinar-te?
Edna Macongo: Sim. Aprendi muita coisa no exercício da função — uma delas é conquistar a confiança dos alunos. Quando os alunos confiam no professor, no que ele diz e no que ele faz, é mais fácil motivá-los a aprender. E é igualmente importante que o professor confie nas capacidades do aluno — inclusive naquelas que o aluno ainda não tem, mas que o professor deseja ver nele.
Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?
Edna Macongo: Apresentaria a sugestão de redefinir os programas de ensino — colocando conteúdos que, de forma prática, ajudassem no desenvolvimento dos alunos, ligados à realidade deles e capazes de os ajudar a resolver problemas do quotidiano, sem que precisassem necessariamente de esperar por uma especialização. Proporia também a actualização e revisão dos manuais de ensino, que têm causado muitos constrangimentos pelo elevado desvio à norma padrão da língua e pela desactualização dos conteúdos. Além disso, proporia a criação de uma cadeira curricular na formação de professores dedicada à comunicação empática — para que o professor seja, para o aluno, um porto seguro e um verdadeiro orientador. E, por fim, defenderia políticas motivadoras para os professores, para que se sintam valorizados pelo trabalho que prestam à sociedade.
Quando olhas para o sector educativo, sentes que a tua experiência e o teu conhecimento prático têm peso nas decisões que se tomam? O que te faz sentir assim?
Edna Macongo: Esta questão é desafiadora. A minha experiência e o meu conhecimento prático têm peso nas decisões que se tomam — mas apenas dentro da realidade da nossa escola. Não transcendem a instituição a que pertenço. Penso que não há comunicação entre o ministério e as escolas. Ao que parece, o ministério cria os programas e as escolas adaptam-nos às suas realidades. Assim, a experiência e o conhecimento prático ficam confinados ao espaço escolar, sem que haja uma cooperação significativa entre o trabalho do professor e as decisões institucionais.
Que mulher considera uma referência inspiradora no seu caminho educativo e que aprendizagens leva dessa influência?
Edna Macongo: As minhas referências no ramo da educação são masculinas: o professor Pedro Promessa, pela forma como transforma o ensino em humanidade; o professor José de Martins Bembo, pelo rigor e disciplina no ensino da língua portuguesa; e o professor Carlos Cabombo, pela forma como interliga o senso comum — ponto de partida — com o conhecimento científico — ponto de chegada. Carrego um pouco de cada um deles no meu exercício profissional.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Edna Macongo: Quando me deparei com esta frase, não pensei logo na educação profissional. Pensei na mulher como aquela que recebeu a missão de educar a sociedade por meio dos filhos em casa. Se a mulher-mãe falhar na educação dos filhos, falhará com a sociedade. No que toca à educação profissional, a mulher deve levar na sua prática a visão macro da educação: ensinamos numa sala restrita, mas pensando no engajamento social daqueles que estamos a formar — para que possam responder às necessidades da sociedade e sejam modelos de ética e moral, acima de tudo.
Imagina que uma jovem mulher te procura porque está a começar na educação e sente-se esmagada pela instabilidade e pelas mudanças constantes. O que lhe dirias?
Edna Macongo: Diria-lhe que a educação é uma profissão nobre e excelente, e que tem os seus desafios — mas esses desafios não aparecem para nos levar à falência. Aparecem para trabalhar em nós o dinamismo, a temperança e a disciplina.
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