Estrela Miguel Tunga
Da Sala de Aula ao Escritório de Recursos Humanos: a Pedagoga que Descobriu que Comunicar, Escutar e Desenvolver Pessoas transcendem Contextos
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Estrela Miguel Tunga, licenciada pela Escola Superior Pedagógica do Bengo, com percurso como professora, directora pedagógica e actualmente profissional de Recursos Humanos. O seu trajecto é singular na campanha: Estrela saiu da sala de aula e levou consigo exactamente o que o mundo corporativo mais valoriza — a capacidade de comunicar, escutar e desenvolver pessoas. Descobriu, no processo, que a pedagogia e os Recursos Humanos falam a mesma língua.
Nesta entrevista, Estrela fala sobre a transição que não foi fácil mas foi natural, sobre as competências que a educação lhe deu sem que ela soubesse que seriam tão valiosas noutro contexto — e sobre a convicção de que quem vem da educação já traz o que o RH mais precisa.
A faculdade prepara-nos para um cenário, mas o mercado por vezes apresenta-nos outro. Como foi trocar a perspectiva da sala de aula pela dinâmica do escritório logo após a licenciatura?
Estrela Miguel Tunga: A mudança de perspectiva da sala de aula para o escritório foi um desafio muito grande e significativo para mim — representou uma etapa muito importante na minha vida profissional. Enquanto professora estava inserida num ambiente focado no ensino e no desenvolvimento académico; já no contexto corporativo, passei a lidar com processos organizacionais e gestão de pessoas. Foi um desafio, sobretudo pela necessidade de adaptação a uma nova realidade — mas também um processo natural de descoberta das minhas capacidades. Fui percebendo, com o tempo, que competências como comunicação, organização e empatia, desenvolvidas na educação, foram essenciais para o meu crescimento como profissional de RH.
Nos seus primeiros meses na área de Recursos Humanos, quais as experiências que mais a marcaram — e que aprendizagens proporcionaram sobre gestão de pessoas e ambiente organizacional?
Estrela Miguel Tunga: Nos primeiros meses, tive experiências marcantes ligadas ao recrutamento, à integração de colaboradores e ao acompanhamento de situações internas. Essas experiências permitiram-me compreender melhor a complexidade da gestão de pessoas no ambiente organizacional. Aprendi que cada colaborador tem expectativas, motivações e desafios diferentes — e que o papel do RH é equilibrar essas necessidades com os objectivos da organização. Um profissional de RH deve desenvolver a escuta activa, a empatia e a comunicação clara: isso é fundamental para promover um ambiente de trabalho saudável e produtivo.
Quais foram as maiores barreiras que encontrou ao chegar ao RH — e como é que a sua base na Educação a ajudou a ultrapassá-las?
Estrela Miguel Tunga: Os maiores desafios estiveram relacionados com a adaptação ao ambiente corporativo, à linguagem técnica e ao ritmo mais acelerado do trabalho. A minha formação em educação foi essencial para ultrapassar esses desafios — competências como comunicação eficaz, capacidade de escuta, organização e sensibilidade para lidar com pessoas ajudaram-me a integrar-me de forma mais segura e a responder de forma assertiva às exigências da área de Recursos Humanos.
Ao iniciar esta nova prática profissional, houve alguma descoberta sobre si mesma — enquanto profissional ou pessoa — que não esperava?
Estrela Miguel Tunga: Sim — descobri em mim uma grande capacidade de adaptação e resiliência, mas também uma forte aptidão para a análise e tomada de decisão no contexto da gestão de pessoas. Não esperava sentir-me tão à vontade a lidar com contextos mais corporativos e com diferentes perfis profissionais. Descobri que tenho facilidade em identificar perfis adequados durante o recrutamento, em mediar situações e em contribuir para a resolução de conflitos — competências que hoje considero essenciais para o meu desempenho profissional.
Muitas competências da pedagogia — como comunicar bem, mediar conflitos ou organizar grupos — são fundamentais nas empresas. Como é que tem usado o que aprendeu na faculdade no dia a dia com os seus colegas e líderes?
Estrela Miguel Tunga: A comunicação assertiva tem sido essencial para interagir com os colegas e líderes, garantindo um bom entendimento e alinhamento nas tarefas. A capacidade de mediar conflitos ajuda-me a lidar com diferentes opiniões e situações de forma equilibrada, promovendo um ambiente de trabalho mais harmonioso. Além disso, a organização e gestão de grupos que desenvolvi enquanto professora permitiram-me coordenar actividades e colaborar em equipa de forma eficiente, contribuindo para melhores resultados dentro da organização.
Nos Recursos Humanos, estamos sempre a orientar ou a integrar novos colaboradores. Já teve a oportunidade de aplicar o seu lado de educadora em algum processo de formação ou apoio a colegas?
Estrela Miguel Tunga: Sim — tenho tido a oportunidade de aplicar o meu lado de educadora, sobretudo nos processos de integração e apoio de novos colaboradores. Procuro orientá-los de forma clara, paciente e estruturada, facilitando a sua adaptação ao ambiente de trabalho. A minha experiência como professora ajuda-me a transmitir informações de forma acessível e a acompanhar o desenvolvimento dos colegas, garantindo que se sintam apoiados e preparados para desempenhar as suas funções com segurança e eficiência.
Como tem sido a sua relação com os profissionais mais experientes da área? Sente que esta troca de saberes tem ajudado a moldar a profissional que se está a tornar?
Estrela Miguel Tunga: A minha relação com profissionais mais experientes tem sido bastante positiva e enriquecedora. Procuro aprender com as suas experiências, ouvir diferentes perspectivas e absorver conhecimentos práticos que complementam a minha formação académica. Essas trocas de saberes têm sido fundamentais para o meu crescimento profissional — ajudando-me a desenvolver uma visão mais estratégica e a tornar-me mais segura e consistente nas exigências da área de Recursos Humanos.
Enquanto jovem licenciada a dar os primeiros passos numa área estratégica, como vê o papel das mulheres no RH hoje?
Estrela Miguel Tunga: O papel das mulheres em Recursos Humanos é cada vez mais central e estratégico. O RH sempre foi uma área muito ligada à escuta, à empatia e à mediação de relações — características onde muitas mulheres têm se destacado, não por estereótipo, mas pela forma como transformam essas competências em resultados concretos para as organizações.
Enquanto jovem licenciada a iniciar este percurso, acredito que existe um espaço crescente e uma valorização cada vez maior do olhar humano que vem da educação e da sensibilidade social. As mulheres têm vindo a ocupar posições de liderança no RH, trazendo uma visão mais inclusiva, colaborativa e focada no desenvolvimento das pessoas. O desafio agora é continuar a afirmar essa presença com competência técnica, visão estratégica e capacidade de influenciar decisões — mostrando que o cuidado com as pessoas também é uma força de gestão.
Nesta fase de início de carreira e transição, houve alguma mulher ou colega que a tenha inspirado a acreditar que era possível ter sucesso nesta nova trajectória?
Estrela Miguel Tunga: Sim. No meu caso, foram sobretudo colegas e a minha Directora que me mostraram que é possível crescer com consistência, mesmo começando com desafios e alguma insegurança. Mulheres que ocupam posições de liderança — mais do que uma pessoa, foi um conjunto de referências femininas que, com o seu exemplo diário, ajudaram a consolidar a minha confiança e a acreditar que também posso construir um percurso sólido nesta área.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Estrela Miguel Tunga: Esta frase é muito poderosa e profunda. Ser mulher e ao mesmo tempo estar ligada à educação é estar num espaço onde o cuidado e a formação caminham juntos. Mostra que a mulher não é apenas educadora dentro da sala de aula — é também agente de mudança social, referência emocional e intelectual, activa na construção de uma sociedade mais consciente e preparada.
Esta afirmação tem um peso especial para mim: reconhecer que a minha presença na educação é, por si só, uma forma de transformação social. Mostra que as mulheres têm voz, liderança, conhecimento e capacidade de decisão.
Se encontrasse hoje uma colega de curso que pensa em explorar o mundo do RH, mas tem receio por ser recém-formada, que conselho lhe daria?
Estrela Miguel Tunga: Primeiro, que esse receio é normal. Entrar numa área nova, especialmente uma tão estratégica como o RH, gera sempre insegurança no início — e ser recém-formada não é uma limitação, é uma fase de aprendizagem intensa onde a vontade de crescer conta tanto quanto a experiência.
Diria que a formação em Educação é, na verdade, uma grande vantagem — quem vem da educação já traz competências muito valorizadas no RH: comunicação, escuta activa, empatia, gestão de pessoas, capacidade de orientar e desenvolver os outros. Que comece, mesmo com pequenos passos — estágios, formações curtas ou oportunidades em áreas como o recrutamento. No mundo do trabalho, especialmente no início da carreira, aprende-se fazendo. O início não é sobre ter todas as respostas — é sobre ter coragem de aprender, crescer e evoluir todos os dias.
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A Estrela saiu da sala de aula e levou consigo exactamente o que o mundo corporativo mais precisa — e muitas vezes não sabe pedir. Esta entrevista é, de certa forma, o par natural da Lina: se a Lina nos mostrou o que o mercado recebe quando a escola falha, a Estrela mostra o que o mercado ganha quando a escola forma bem. Comunicação, escuta activa, empatia, capacidade de desenvolver pessoas — não são competências que se aprendem num curso de RH. São competências que se constroem numa sala de aula, com turmas difíceis, ritmos diferentes e recursos escassos. A Estrela prova isso com o seu percurso. E diz algo que devia ser dito mais vezes: quem vem da educação já traz o que o RH mais precisa. Talvez o problema não seja a formação que os nossos professores têm — seja o reconhecimento que o sistema ainda lhes nega.