Madre Esmeralda da Conceição Oliveira António
Diante dos Estudantes não Deixo de Ser Madre:
Filosofia, Fé e a Missão de Formar para a Vida
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Madre Esmeralda da Conceição Oliveira António, professora de Filosofia e Directora do Complexo Escolar Católico Casa Gaiato, em Malanje, nomeada pelo Arcebispo Dom Luzízila Kiala em 2022. Com mais de onze anos de percurso na educação — entre Malanje e Luanda, do ensino de Educação Moral e Cívica à Matemática, da Ética à Filosofia — Madre Esmeralda é a prova de que vocação e missão não se contradizem: alimentam-se mutuamente.
Nesta entrevista, Madre Esmeralda fala sobre o que significa ser Madre professora sem deixar de ser nenhuma das duas, sobre os desafios de conciliar o regulamento da congregação com a planificação de aulas, sobre a influência que a moldou e o ditado que nunca mais esqueceu — “Na casa do saboneteiro quem não cai, escorrega” — e sobre a convicção de que formar um estudante é muito mais do que ensiná-lo.
Ser Madre e educadora implica inspirar, orientar e formar vidas enquanto se lidera pelo exemplo. O que despertou em si essa paixão pelo ensino e pela educação — e como essas duas dimensões se articulam para impactar alunos e a comunidade educativa?
Madre Esmeralda: O que despertou em mim essa paixão pelo ensino e pela educação foi o exemplo de alguns professores, Madres e Padres ligados à educação. O interesse deles em transmitir o conhecimento, a profundidade dos seus ensinamentos e o empenho em transformar e formar os seus educandos. Essas duas dimensões — o ensino e a educação — articulam-se no exercício profissional. Diante dos estudantes não deixo de ser Madre. Sou Madre professora. Aproveito sempre as oportunidades para educar — seja no âmbito comportamental ou dando orientações para a vida. O nosso objectivo é formar o estudante de forma integral, e não apenas do ponto de vista académico.
Enquanto professora, como compreende o papel da educação espiritual no desenvolvimento integral da criança — emocional, social e comportamental?
Madre Esmeralda: Compreendo que a educação espiritual tem um papel preponderante no desenvolvimento integral da criança. A criança tem a sua componente espiritual e aprende dos pais e educadores a forma de expressar e viver essa espiritualidade. É neste contexto que entra a educação espiritual, que se vai reflectir na personalidade da criança — desde o ponto de vista emocional, social e comportamental.
Ao falarmos da personalidade da criança, estamos a referir-nos das suas características peculiares, que a definem como indivíduo, e que compreendem os seus aspectos biológicos, fisiológicos, sociais e psicológicos.
De que forma a formação baseada em valores pode influenciar não apenas o carácter, mas também o futuro académico e profissional das crianças?
Madre Esmeralda: A formação do carácter é um processo complexo que envolve dimensões sociais, culturais e éticas — um processo de afirmação moral fundamentado na consciência e nos valores. Na formação destes valores, o indivíduo sofre influência dos diversos grupos dos quais faz parte. Por isso, uma formação baseada em valores molda o carácter do indivíduo e orienta-o na escolha da sua profissão. O futuro académico e profissional é fruto de uma construção de valores que começa desde a infância e leva a criança ou o jovem a decidir dar continuidade ao que aprendeu e viveu.
Vivemos num mundo em constante transformação, marcado por instabilidade social, tecnológica e cultural. Como acredita que uma educação fundamentada em princípios cristãos pode ajudar a guiar os jovens a manter esses valores diante de mudanças rápidas e desafios globais?
Madre Esmeralda: Acredito que uma educação fundamentada em princípios cristãos — como o amor, a solidariedade e o respeito ao próximo — pode ajudar e guiar os jovens a manter esses valores através da transformação e orientação de vida que esses princípios proporcionam. Quando os princípios cristãos são bem assimilados, tornam-se parte do carácter do indivíduo — e este habitua-se a agir de acordo com eles. Como diz Aristóteles, a excelência moral resulta de hábitos adquiridos por meio da prática contínua de acções virtuosas. Quando se habitua a ser solidário e a ter amor ao próximo, não há como ser diferente diante da instabilidade social ou da influência dos meios de comunicação.
Que desafios encontra ao alinhar valores espirituais com a realidade social e cultural que as crianças, adolescentes e jovens vivem fora da igreja?
Madre Esmeralda: O principal desafio que enfrento é a influência do que consideram ser modelo. Na escolha entre modelo e não modelo, muitas crianças, adolescentes e jovens acabam por perder o foco e ficam sem saber distinguir o que realmente querem ser. Acabam por viver com dupla personalidade — alguns querem a aceitação tanto religiosa como dos amigos — e acabam por se perder. É esta indecisão que dificulta alinhar os princípios religiosos com a realidade social.
Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?
Madre Esmeralda: Se tivesse de escolher um momento, escolheria qualquer momento em que estou na escola. Porque é aí que tenho a oportunidade de expressar a minha fé em primeiro lugar — e de expressar a minha consagração através de acções concretas, com a palavra e através do meu testemunho de vida.
Em contextos espirituais também existem mudanças de liderança, visão e prioridades ministeriais. Como essas transições impactam o seu trabalho pedagógico?
Madre Esmeralda: As transições de liderança, visão e prioridades ministeriais impactam o meu trabalho pedagógico de forma positiva. Essas mudanças exigem ajustes na dinâmica de trabalho — e procuramos sempre fazer um enquadramento entre os deveres da congregação, da Arquidiocese e da pastoral, para não prejudicar o trabalho pedagógico.
Já viveu um momento em que uma mudança na liderança da Igreja exigiu adaptação na forma como ensinava ou organizava as actividades? Como lidou com essa transição?
Madre Esmeralda: Já vivi momentos em que as mudanças de liderança da Igreja exigiram adaptação na forma como ensinava ou organizava as actividades. Lidei com essa transição recorrendo ao diálogo — quer com os responsáveis da escola, quer com os responsáveis da Igreja. Em algumas ocasiões os ajustes foram simples, como uma adaptação de horário. Mas outras vezes havia necessidade de ajustes na disciplina, ou mesmo de escola, em caso de transferência ou mobilidade. Toda a mudança exige adaptação — e a vida religiosa não foge a essa regra.
Quais foram os maiores desafios que enfrentou ao conciliar as suas responsabilidades como Madre e educadora — e como essas experiências moldaram a sua visão sobre o papel da mulher na educação?
Madre Esmeralda: Os principais desafios foram três.
O primeiro foi o regulamento interno da comunidade. Precisava de mais tempo para a planificação e preparação das aulas — mas tinha um regulamento a cumprir. Dormia muito tarde, porque durante o dia tinha tarefas a cumprir como Madre, e só depois da oração da noite ficava disponível para me ocupar das tarefas académicas.
O segundo foi a fase de provas — com necessidade de ajustar as minhas responsabilidades em casa, ir à escola em dias não previstos e fazer a correcção de provas de mais de cinco turmas.
O terceiro foram as actividades extra-escolares — das quais, pela minha condição como Madre, não podia fazer parte, seja pela sua natureza ou por sobreposição de agenda.
Cada desafio vivido e ultrapassado deixou sempre uma aprendizagem. Com o tempo, deixaram de ser problemas. Aprendi a combinar melhor os meus programas, a aproveitar ao máximo os tempos livres — e cheguei mesmo a frequentar outra formação, com todos os deveres de Madre e professora.
Ao longo da sua trajectória, houve alguma mulher, educadora ou referência que tenha influenciado a sua forma de pensar sobre ensino, aprendizagem ou liderança?
Madre Esmeralda: Sim. Ao longo da minha trajectória houve uma mulher educadora que influenciou profundamente a minha forma de pensar sobre o ensino e a aprendizagem. Essa inspiração reflecte-se na forma como lido com as pessoas — aprendi com ela que ninguém é perfeito e ninguém é mar de defeitos. Todos têm um potencial por trabalhar: em alguns casos precisa de ser despertado, noutros precisa apenas de algum impulso e motivação. Ensinou-me ainda a contar com os defeitos e limitações dos outros — porque todos temos limitações e todos escorregamos. Ela gostava de dizer: “Na casa do saboneteiro quem não cai, escorrega.”
Quando tomamos consciência de nós mesmos, passamos a exigir menos dos outros e mais de nós.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Madre Esmeralda: Esta afirmação desperta em mim o sentido de pertença. Estou chamada a viver a minha feminilidade no contexto educacional — a realizar-me como mulher consagrada na educação de jovens e crianças, dando assim o meu contributo na formação das futuras gerações.
Imagina que uma jovem estudante está a iniciar a sua formação em educação e sonha tornar-se Madre, ao mesmo tempo que deseja construir uma carreira docente sólida. Que conselhos lhe daria?
Madre Esmeralda: O conselho que daria é que a vida consagrada, como qualquer outra, tem os seus desafios — e estes não devem ser obstáculos para responder ao chamado de Deus a servi-Lo numa consagração total. Que não tenha medo de dizer sim a Deus. Ele caminha connosco e pode guiá-la na sua auto-realização como mulher consagrada e educadora.
Que faça a experiência — e não se vai arrepender. Pode começar já a sua caminhada vocacional inscrevendo-se no grupo dos vocacionados da sua paróquia ou Missão, e iniciar assim o seu discernimento vocacional.
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Madre Esmeralda diz algo que parece simples mas tem uma profundidade que fica: “Diante dos estudantes não deixo de ser Madre.” Não é uma divisão — é uma síntese. A vocação religiosa e a vocação pedagógica não competem entre si; alimentam-se. O que me ficou desta entrevista foi o ditado que carrega da educadora que a marcou: “Na casa do saboneteiro quem não cai, escorrega.” Há uma humildade pedagógica nessa frase que devia estar na formação de todos os professores — a consciência de que exigir dos outros começa por exigir de si mesmo, e que ninguém está acima da limitação.
A Abigail, numa outra entrevista desta campanha, diz que “valores bem estruturados conduzem sonhos, projectos e metas”. A Madre Esmeralda confirma isso pelo percurso — dorme tarde para planificar, frequenta formação com todos os deveres de Madre e professora, e ainda encontra no regulamento da congregação não um obstáculo, mas uma escola de gestão do tempo. Em Arquitecturas Invisíveis da Educação escrevi que a formação da criança não acontece apenas dentro da escola formal, mas na articulação entre escola, família e comunidade. O que a Madre Esmeralda faz no Casa Gaiato, em Malanje, é exactamente essa arquitectura — invisível para as políticas, mas absolutamente real para quem lá cresce.