JUSTINA MARCIAL DE CASTRO
É Gratificante quando os Alunos Contextualizam: a Docente para quem a Voz do Estudante é Inegociável
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Justina Marcial de Castro, docente de Educação Laboral e Educação Visual e Plástica, actualmente a leccionar no Colégio Alfa e Ómega, em Luanda. Desde 2020, o seu percurso passou por quatro instituições distintas — do ensino primário ao primeiro ciclo, da Geografia-História ao Desenho Técnico — acumulando uma experiência diversificada e ancorada na prática. É uma professora que ensina com as mãos e com a convicção de que valorizar a voz do estudante não é uma opção pedagógica, mas uma responsabilidade.
Nesta entrevista, Justina fala sobre o momento em que se sente mais viva dentro de uma sala de aula, sobre o que nenhum manual lhe ensinou, e sobre a convicção de que excesso de conteúdo não define um excelente professor — e de que a mudança do mundo depende, em grande parte, das mulheres que ensinam.
O que te trouxe ao trabalho que fazes na educação — e o que te mantém nele, apesar de tudo?
Justina de Castro: O que me trouxe foi a necessidade de poder partilhar tudo quanto sei — e a vontade de mudar o cenário da nossa sociedade através do ensino. O que me mantém é que me sinto mais viva quando vejo os meus alunos a contextualizar aquilo que ensino. Isso é pureza e tranquilidade — apesar das sérias exigências e do cansaço psicológico.
Ao olhar para o teu percurso na educação, que transformações no sistema testemunhaste que marcaram profundamente a forma como trabalhas hoje?
Justina de Castro: O que noto como transformado no sistema, e que testemunho no meu percurso, é a forma de ensinar de forma clara e precisa. A facilidade que os alunos têm em compreender um determinado conteúdo tornou-se o epicentro da minha rotina — e é isso que marca os meus anos na educação.
Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?
Justina de Castro: A melhor parte é quando, na sala de aula, os alunos que menos comentam começam a argumentar no decorrer da aula — e muitas vezes fazendo a ligação entre o conteúdo anterior e o que está a ser ensinado. Isto é magnífico. Sinto-me compreendida.
Há algo que aprendeste fazendo — sobre o que funciona, sobre como os alunos aprendem, sobre como as comunidades respondem — que nenhum manual ou orientação oficial conseguiria ensinar-te?
Justina de Castro: Aprendi a procurar estratégias para lidar concretamente com os alunos de uma turma, tendo em conta as suas dificuldades individuais. Aprendi a ensinar representação em Desenho Técnico com maior precisão — de forma que a explicação abranja todos os elementos da turma. Aprendi a formular matrizes e a resolver problemas de estática. E aprendi, acima de tudo, a conduzir uma turma até atingir todos os objectivos traçados. Nenhum manual ensina isso — aprende-se fazendo.
Quando a liderança muda no topo e novas prioridades chegam, como é que isso se reflecte concretamente no teu trabalho com os alunos, famílias ou comunidade?
Justina de Castro: Reflecte-se profundamente na dinâmica dos alunos — que têm de se adaptar às novas exigências de quem orienta. Vivemos um momento de mudança na instituição e, no início, foi desafiante para eles. Do lado familiar, têm-se verificado tanto mudanças positivas como negativas quando há necessidade de alterar as orientações do topo.
Ao longo do teu percurso, que sabedoria prática acumulaste sobre como manter qualidade e continuidade no trabalho quando tudo à volta parece mudar constantemente?
Justina de Castro: A sabedoria que fui acumulando assenta em cinco práticas: actualizar os conteúdos regularmente; fazer o cruzamento entre o que foi e o que é hoje; valorizar sempre o que o aluno já carrega cognitivamente; aplicar métodos que despertem a busca pelo conhecimento; e fazer valer a bilateralidade no ensino.
Há alguma mudança de orientação que chegou ao teu trabalho e que te obrigou a repensar completamente a forma como fazias as coisas?
Justina de Castro: Infelizmente, nunca me vi envolvida nesse cenário. Sempre tive o privilégio de seguir os meus padrões — e nunca interferiram neles.
Quando olhas para o sector educativo, sentes que a tua experiência e o teu conhecimento prático têm peso nas decisões que se tomam? O que te faz sentir assim?
Justina de Castro: Sinto que sim — as políticas que se implementam fazem-me sentir assim.
Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?
Justina de Castro: Gostaria que compreendessem que o excesso de conteúdo não define um excelente professor. Que temas cruzados entre a 7.ª, 8.ª e 9.ª classes não definem excelência — certos temas devem ser ensinados apenas numa classe. Que a implementação de métodos ligados à prática dos alunos é mais relevante do que os métodos que remetem apenas para a teoria. Que a expansão dos manuais dos alunos é muito mais importante do que se reconhece. Que os programas de ensino devem ser de fácil acesso para todos os professores — assim evitar-se-ia o improviso. E que valorizar a voz do estudante em sala de aula é o componente essencial no ensino moderno.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Justina de Castro: Desperta a minha força, o meu amor e a minha resiliência à educação. Desperta a vontade que ainda tenho de mudar o quadro da nossa sociedade.
Imagina que uma jovem mulher te procura porque está a começar na educação e sente-se esmagada pela instabilidade e pelas mudanças constantes. O que lhe dirias?
Justina de Castro: Diria que mude os seus métodos de ensino, que se lembre das razões que a levaram à educação — e que nunca desista. A mudança do mundo depende grandemente dela.
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A Justina ensina Educação Visual e Plástica — e talvez por isso veja a sala de aula com olhos de quem sabe que o processo importa tanto quanto o resultado. O que me ficou desta entrevista foi a forma como ela descreve o momento em que os alunos que menos falam começam a argumentar — e a fazer ligações entre o que aprenderam antes e o que estão a aprender agora. Chama-lhe “magnífico”. E tem razão. Isso não é aprendizagem de conteúdo — é pensamento a acontecer em tempo real.
Há também algo no que ela diz aos decisores que merece ser lido com atenção: o excesso de conteúdo não define um excelente professor. Escrevi em A Crise do Pensamento num Mundo que Grita Informação que o verdadeiro problema não é a falta de informação — é a falta de compreensão. E em Inovar Para Incluir, que inovar não é acrescentar — é repensar. A Justina diz exactamente isso, com a autoridade de quem já passou por quatro instituições e sabe do que fala.