Lina J. Candala Pedro
O Ciclo que Ninguém Quer Ver: uma Directora de Recursos Humanos sobre a Distância entre a Escola e o Mercado de Trabalho
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Lina Candala Pedro, licenciada em Gestão de Recursos Humanos e Directora de Recursos Humanos. O seu lugar na campanha é singular: não é professora nem investigadora — é quem recebe, todos os dias, os produtos do sistema educativo angolano. Quem entrevista candidatos, detecta falhas de comunicação, gere conflitos laborais e observa, em tempo real, o que a escola formou — ou deixou de formar.
Nesta entrevista, Lina fala sobre o que a formação escolar revela quando alguém entra numa sala de reuniões, sobre o ciclo silencioso que perpetua as mesmas limitações de geração em geração — e sobre a convicção de que até os melhores médicos dependem de um professor que, infelizmente, ainda não é devidamente considerado no nosso país.
No seu trabalho enquanto Directora de Recursos Humanos, o que a formação escolar das pessoas revela no dia a dia — na forma como escrevem um e-mail, participam numa reunião, defendem uma ideia, resolvem problemas ou se posicionam numa discussão?
Lina Pedro: Revela muita debilidade no ensino. Estas limitações reflectem-se sobretudo na capacidade de análise, interpretação e resolução de problemas — o que impacta directamente a eficiência dos processos produtivos e a qualidade das entregas. No meu dia a dia tenho enfrentado essas dificuldades, e têm causado um aumento na ocorrência de conflitos laborais, muitas vezes associados a falhas de comunicação e compreensão. São debilidades que têm raiz na falta de melhores condições de ensino.
A partir dessas observações concretas, o que elas lhe dizem sobre a qualidade do ensino que essas pessoas receberam?
Lina Pedro: Dizem-me que a qualidade é baixa — e que essa baixa qualidade está directamente ligada ao ambiente de aprendizagem que lhes foi oferecido. Quando as condições de ensino são precárias, as lacunas que daí resultam aparecem inevitavelmente no mercado de trabalho.
Quando essas lacunas aparecem no ambiente empresarial, como é que isso impacta o seu trabalho enquanto líder de pessoas? Dificulta processos? Aumenta custos de formação interna? Atrasa resultados?
Lina Pedro: Dificulta o processo de contratação desde a fase de entrevista — há muita debilidade na postura, na forma de falar e de se apresentar. Em equipa, dificulta o relacionamento interpessoal e a construção de um ambiente saudável de trabalho. Nos processos, atrasa a eficiência e a capacidade de resposta aos clientes. Em suma: dificulta processos e atrasa resultados.
Em que medida essas fragilidades de base influenciam a empregabilidade dos jovens? Acredita que parte do desemprego estrutural pode estar ligado à qualidade da formação inicial?
Lina Pedro: Essas fragilidades influenciam directamente a empregabilidade. Afectam as competências, a autoconfiança, o acesso a oportunidades e a capacidade de adaptação ao mercado de trabalho. E é sim seguro afirmar que este é um dos motivos do desemprego estrutural em Angola.
Quando recebe candidatos com boa formação técnica, mas dificuldades na comunicação, pensamento crítico ou autonomia, o que isso lhe diz sobre o modelo de ensino que os formou?
Lina Pedro: Olhemos para uma sala de aula com 50 ou mais alunos no ensino de base — 60 a 70% tendem a prestar mais atenção ao que for prático do que teórico. O sistema acomodou-se a isso: formou para a técnica e esqueceu o resto. Por isso chegam ao mercado com competências práticas, mas sem comunicação, sem pensamento crítico, sem autonomia. Com isto quero dizer que o modelo de ensino que os formou é extremamente débil.
O que estas experiências lhe informam sobre o futuro da qualidade dos profissionais em Angola, se o sistema educativo não evoluir de forma consistente?
Lina Pedro: Se o sistema não evoluir, teremos impacto no desenvolvimento económico, dependência externa e um ciclo de reprodução das mesmas limitações — porque professores mal formados tendem a formar alunos com as mesmas debilidades. A isso acresce formação técnica insuficiente e baixa competitividade internacional.
Na sua visão, qual é o papel dos professores nesse processo de transformação? Que tipo de educador pode alterar esse cenário?
Lina Pedro: O papel dos professores é fundamental no processo de transformação de uma pessoa e de uma sociedade — porque o conhecimento gera desenvolvimento, expande o horizonte ético e moral e a capacidade de raciocínio. Professores bem formados formam alunos com capacidade de criatividade e evolução.
E qual deve ser o papel dos decisores políticos e institucionais para que a educação deixe de produzir apenas certificados e passe a formar profissionais preparados?
Lina Pedro: O papel dos decisores políticos e institucionais deve ser apostar na educação — sem medo de errar — ao mesmo nível que apostam nos órgãos de segurança do país. Porque até para que bons médicos cuidem do maior bem que existe, que é a vida, dependem do ensino de um professor — que, infelizmente, ainda não é devidamente considerado no nosso país.
Em contextos de liderança móvel — onde políticas, direcções e prioridades mudam — como garantir continuidade na qualidade da formação?
Lina Pedro: Para garantir essa continuidade tenho implementado formações de capacitação interna para colmatar as debilidades, criando avaliações de desempenho para proporcionar profissionais mais competentes e com objectivos de crescimento — pensando sempre na continuidade da sociedade e num futuro diferenciado.
Enquanto mulher em posição de liderança empresarial, sente que a sua leitura sobre a ligação entre educação e mercado de trabalho é suficientemente considerada nos espaços de decisão?
Lina Pedro: Sim — a educação é a chave do sucesso no processo de tomada de decisão, pois amplia o conhecimento e expande o horizonte de criação de ideias.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em si, sendo alguém que observa diariamente os efeitos da educação fora da escola?
Lina Pedro: Esta afirmação desperta em mim a personalidade de uma mãe — que é a educadora número um de uma sociedade. Ser mulher na educação, mesmo fora da sala de aula, é ser o ser que inspira, que observa e que não se cala perante o que vê. É assumir a responsabilidade de dizer o que o mercado revela — e de exigir que o sistema escute.
Se pudesse dirigir uma mensagem directa aos professores, decisores e jovens profissionais sobre o que precisa mudar com urgência para reduzir a distância entre educação e empregabilidade, o que diria?
Lina Pedro: A primeira prioridade é a valorização dos professores: aumento progressivo dos salários, melhoria das condições de trabalho e programas contínuos de formação pedagógica. A isso deve juntar-se a redução do rácio aluno-professor, a revisão e melhoria dos materiais didácticos e o investimento em infra-estruturas escolares.
Professores motivados e bem preparados conseguem mitigar outras falhas enquanto reformas mais complexas e demoradas são implementadas. E diria também: mudem e melhorem os métodos de ensino.
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A Lina disse, quando manifestou o interesse em participar: “não sou professora, mas gostaria de participar também.” Não pensei duas vezes. A Angola Aprende foi idealizada para albergar todas as vozes da comunidade — e a educação é de todos.
Admito que, naquele momento, ainda não sabia o que essa decisão me ia dar. Nada me preparou para o impacto real que esta entrevista teve em mim.
A Florinda, numa outra entrevista desta campanha, descreveu o que o sistema não desenvolveu nela — pensamento crítico e autonomia. A Lina vê esse vazio todos os dias do outro lado: numa sala de entrevistas, num e-mail mal escrito, num conflito que uma boa comunicação teria evitado. Escrevi sobre isso em A Crise do Pensamento num Mundo que Grita Informação — mas foi a Lina quem me mostrou que o problema é ainda mais urgente do que as palavras que usei para o descrever.
E então chego a uma resposta que me para. Ela descreve ser mulher na educação — mesmo fora da sala de aula — como inspirar, observar e não se calar. Até quem não ensina, educa. O nosso trabalho como professores, psicólogos escolares, terapeutas, auxiliares de limpeza, gestores escolares — toda a equipa educativa do aluno — define o tipo de profissionais que o mercado de trabalho recebe. A Lina vive esse outro lado. E desta vez, foi ela quem me ensinou alguma coisa.
Uma conversa necessária. Para todos.