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Dos Ecos do Berço ao Futuro que a Língua Torna Possível

A língua materna começa muito antes da escola. Começa no berço, no colo, na voz que embala, na palavra que nomeia o afecto e o medo antes de qualquer método ou currículo. É nessa língua primeira que a criança aprende a ordenar o mundo, a distinguir o que é seu do que é estranho, a perceber que existe e que pertence a algum lugar. Por isso, quando falamos de língua materna, não estamos a falar apenas de comunicação — estamos a falar do fundamento sobre o qual se constrói uma pessoa. O Dia Internacional da Língua Materna é a ocasião de reconhecer esse fundamento com seriedade e de perguntar, sem eufemismos, de que modo a escola o honra — ou o ignora.

A ORIGEM QUE FORMA E SUSTENTA
Há crianças que chegam à escola com uma língua viva dentro de si — uma língua em que já sabem contar histórias, resolver conflitos e expressar alegria — e que encontram, nesse espaço que deveria acolhê-las, o silêncio sistemático daquilo que são. Quando a língua materna de uma criança não tem lugar na sala de aula, o que se produz não é apenas uma dificuldade de aprendizagem: é uma ruptura de identidade. A criança aprende, antes de qualquer conteúdo didáctico, que o que trouxe de casa não vale. E essa aprendizagem, feita no corpo antes de ser feita na mente, acompanha-a por muito tempo. O contrário também é verdadeiro: a criança que aprende num espaço que reconhece a sua língua como um recurso e não como um obstáculo, constrói conhecimento com raízes. Aprende com confiança, porque não está a aprender contra si própria.

IDENTIDADE, DIGNIDADE E O DIREITO DE SER INTEIRO
Ao longo da minha carreira — em Angola, nos Estados Unidos, nas salas de formação de professores — vi repetidamente o que acontece quando uma criança é educada na sua língua. As crianças muitas vezes rotuladas de “lentas” são, na verdade, crianças a quem falta pertença. E a pertença linguística não é um detalhe pedagógico: é uma condição de dignidade. Quando um educador dá espaço à língua materna, está a devolver ao aluno a possibilidade de ser inteiro. Essa inteireza tem consequências visíveis: o aluno participa mais, arrisca mais e chega mais longe — não apesar da sua língua, mas por causa dela.

ANGOLA E A LÍNGUA COMO ALICERCE DE FUTURO
Angola é um país de uma riqueza linguística extraordinária. O Umbundu, o Kimbundu, o Kikongo, o Tchokwe, o Ngangela, o Fiote — estas línguas não são apenas património; são sistemas vivos de conhecimento e de visão do mundo. Num país assim, cada criança traz consigo uma herança que a escola tem a responsabilidade de receber — não como curiosidade folclórica, mas como fundamento real de aprendizagem. Quando essa herança é honrada, o que se constrói não é apenas um aluno com bons resultados: é uma pessoa com identidade consolidada e pertença clara ao futuro que quer construir. É este o arco que este artigo descreve — dos ecos do berço ao futuro que a língua torna possível.

O QUE CADA EDUCADOR PODE FAZER
Neste 21 de Fevereiro, não peço que todos se tornem especialistas em linguística. Peço algo mais actual e exigente: que cada educador se pergunte se a escola que habita é um lugar onde uma criança pode ser inteira. A língua materna não pede monumentos; pede respeito e que a educação pare de a tratar como um problema. Na Angola Aprende, acreditamos que fortalecer o ensino começa por aqui — por reconhecer que a criança já carrega mundo. O papel da escola não é substituir esse mundo, mas ajudá-la a expandi-lo, sem nunca a obrigar a abandonar a voz com que aprendeu a existir.