O Que a Escola Torna Público

Durante doze anos a estudar em Luanda, habituei-me a ver o meu nome exposto nos corredores das escolas por onde passei. Surgia nas vitrinas, nos murais, nas listas afixadas com uma naturalidade quase ritual. Lembro-me bem dessa experiência e lembro-me também de a viver com tranquilidade. Em casa, existia um sistema claro e exigente que garantia acompanhamento constante, disciplina e orientação, assegurando que as minhas notas fossem sempre escritas a preto e, na maioria das vezes, acima da média. Para mim, aquela exposição nunca representou ameaça nem constrangimento.
Mas a escola não era feita apenas de mim.
Ao lado do meu nome, muitas outras notas preenchiam os murais em vermelho. Muitas mesmo. E nós sabíamos exactamente quem eram esses alunos. Tinham nomes, tinham rostos, por vezes até fotografias. A exposição não era abstracta nem distante; era concreta, quotidiana e partilhada por todos. Crescemos a reconhecer, sem necessidade de explicação formal, quem estava “bem” e quem estava “mal”, quem subia ao quadro de honra e quem ficava associado, trimestre após trimestre, à cor que marcava o mural. Aqui manifesta-se já um problema central: a normalização da exposição pública do desempenho académico individual, tratada como prática pedagógica legítima sem reflexão sobre o seu impacto.
Recordo-me também das fotografias. As minhas, integradas nos quadros de honra, em fundos de cartolina cuidadosamente decorados para simbolizar mérito, celebrações e datas festivas. Hoje, observo o mesmo a acontecer com os meus irmãos, que ainda percorrem o sistema de educação em Angola. As vitrinas mudaram de formato, os materiais tornaram-se mais modernos, mas a lógica mantém-se surpreendentemente intacta: nomes, notas, imagens e classificações continuam a ser tornados públicos como parte normal da vida escolar. Este prolongamento no tempo revela um problema institucional persistente: práticas herdadas que se mantêm por hábito e não por intenção pedagógica consciente.
Esta observação não surge como acusação nem como nostalgia. Surge como ponto de partida para uma reflexão necessária. Quando uma prática atravessa gerações quase sem ser questionada, o problema deixa de ser individual e passa a ser institucional. E é precisamente nesse plano que a escola deve interrogar-se sobre o que torna público e porquê.
A avaliação escolar não é apenas um mecanismo técnico de medição do desempenho. É um acto pedagógico que comunica valores, expectativas e hierarquias. A forma como os resultados são divulgados ensina tanto quanto os conteúdos desenvolvidos no ambiente de aprendizagem. Quando a divulgação pública de informação académica individual se transforma em rotina, a avaliação afasta-se da sua função formativa e aproxima-se de uma lógica de exposição que pouco acrescenta à aprendizagem. Aqui evidencia-se outro problema estrutural: a confusão entre avaliação formativa e exibição pública de resultados.
Os dados académicos fazem parte do percurso do aluno e da sua identidade em construção. Nomes, imagens e médias não são meros elementos administrativos; são informação pessoal que exige tratamento criterioso. Torná-los públicos não melhora o processo educativo nem fortalece a avaliação enquanto instrumento pedagógico. Em muitos casos, apenas normaliza a comparação constante e reforça um problema recorrente: a confusão entre transparência institucional e acesso irrestrito à informação individual.
Importa sublinhar que esta reflexão não parte de uma visão paternalista da escola nem de uma leitura de fragilidade dos alunos. Parte da responsabilidade institucional. A escola educa também pelo modo como organiza os seus espaços, comunica resultados e gere informação. Ao expor dados académicos individuais, transmite uma mensagem silenciosa sobre sucesso, fracasso e valor, contribuindo para um problema pedagógico profundo: a redução do valor do aluno ao resultado visível que ocupa no espaço escolar.
Proteger dados no contexto educativo não é uma exigência abstracta nem um detalhe administrativo. É uma extensão natural da ética profissional do educador e do compromisso da escola com a dignidade humana. Transparência não significa tornar tudo visível; significa comunicar com intenção pedagógica, com critério e com consciência do impacto das práticas adoptadas.
Na Angola Aprende, entendemos que educar é um acto consciente e responsável. Rever práticas antigas não é negar a história das escolas angolanas, mas reconhecer que a educação, para cumprir o seu papel transformador, precisa de se alinhar com o tempo presente e com os valores que afirma promover. As instituições que reflectem criticamente sobre as suas práticas não perdem autoridade; constroem confiança, coerência e maturidade institucional.
Como tenho defendido, “na escola, a informação sobre o aluno faz parte do seu percurso e da sua identidade. Tratar esses dados com respeito é educar para a dignidade, para a responsabilidade e para a cidadania.” Esta não é uma questão periférica nem um debate meramente técnico. É um tema central para quem acredita numa educação capaz de formar cidadãos conscientes, críticos e responsáveis.
Os problemas institucionais e caminhos pedagógicos possíveis
O primeiro problema claramente identificado é a divulgação pública de notas individuais, prática que transforma a avaliação num mecanismo de comparação permanente e visível. Quando a nota deixa de ser um instrumento pedagógico e passa a ocupar o espaço público da escola, perde-se o seu carácter formativo. A alternativa consiste na comunicação individualizada dos resultados, assegurando que cada aluno e a sua família recebem a informação de forma directa, contextualizada e pedagógica, preservando a avaliação como instrumento de orientação, acompanhamento e melhoria da aprendizagem.
Um segundo problema é a exposição pública de nomes e imagens associadas ao desempenho académico, frequentemente materializada em quadros de honra afixados em cartolinas e murais. A alternativa não é eliminar o reconhecimento do mérito, mas requalificar a forma como esse reconhecimento acontece. Integrar o mérito académico nas celebrações institucionais da escola, como galas de fim de ano ou momentos solenes, com atribuição de certificados, prémios ou menções formais baseadas em critérios claros, torna o reconhecimento mais memorável, duradouro e pedagógico, sem necessidade de expor notas ou classificações.
Identifica-se também como problema a confusão entre transparência institucional e acesso irrestrito à informação académica individual. Muitas escolas tornam públicos dados por ausência de orientações claras sobre o que deve ou não ser divulgado. A alternativa passa pela definição de protocolos institucionais de comunicação, simples e adequados à realidade escolar, que estabeleçam quem tem acesso à informação, em que formato e com que finalidade, promovendo uma cultura de responsabilidade, critério e respeito pela informação educativa.
Outro problema recorrente é a redução da avaliação ao resultado final tornado visível, frequentemente descontextualizado do percurso do aluno. Quando apenas o resultado é destacado, perde-se a dimensão do processo e do desenvolvimento. A alternativa reside no reforço da avaliação formativa contínua, integrada no ambiente de aprendizagem, com retorno pedagógico regular, acompanhamento sistemático e valorização da evolução do aluno ao longo do tempo, reforçando o sentido pedagógico da avaliação.
Por fim, existe o problema estrutural da manutenção acrítica de práticas herdadas, reproduzidas mais por hábito do que por reflexão pedagógica. A alternativa é investir na formação contínua de professores e gestores escolares, centrada em ética educativa, comunicação institucional e gestão responsável da informação, permitindo que as escolas façam escolhas conscientes, alinhadas com os valores que afirmam promover e com as exigências de uma educação contemporânea.
Educar implica escolhas. A forma como avaliamos, comunicamos e tornamos pública — ou protegemos — a informação dos alunos é uma dessas escolhas. E toda escolha educativa ensina, mesmo quando não é explicitamente assumida como tal.