Educar é Estender: Quando o Saber Sai da Sala e Encontra a Comunidade

Em Angola, educar continua, muitas vezes, confinado a quatro paredes. No entanto, a aprendizagem só se transforma em mudança real quando o conhecimento atravessa a porta da sala e encontra as pessoas e os desafios da comunidade. Educar é, por isso, estender — levar o saber ao território onde a vida acontece. Essa é a essência da extensão universitária: a ponte entre o conhecimento académico e a acção social, entre o que se ensina e o que realmente transforma.
Quando bem estruturada, a extensão universitária transforma o conhecimento em desenvolvimento, une o estudante ao cidadão e converte a universidade num espaço de serviço à sociedade. Em Angola, esta função encontra-se ainda em consolidação — carece de políticas claras, recursos dedicados e integração efectiva na missão das instituições de ensino superior. Estudos académicos, como Extensão Universitária em Angola: Tendências, Acções e Projecções (Universidade Agostinho Neto, 2019) e As Funções da Universidade em Angola (Universidade Katyavala Bwila, 2020), analisam este percurso e sublinham a importância de reforçar a relação entre as instituições de ensino superior e as comunidades locais.
Estender o saber não significa levar soluções prontas da universidade para a comunidade, mas ouvir antes de propor, observar antes de ensinar e criar soluções feitas à medida da nossa realidade. Significa reconhecer o conhecimento que já existe nas comunidades e transformá-lo em diálogo, parceria e acção. A alfabetização de adultos, a formação de professores, a literacia digital, a educação ambiental e a inclusão educativa são exemplos de práticas que dão vida a uma educação que aprende com o mundo e o serve ao mesmo tempo.
Algumas universidades angolanas têm dado passos promissores. A Universidade Mandume ya Ndemufayo, na província da Huíla, e a Universidade Lueji A’Nkonde, na Lunda Norte, têm implementado gabinetes e planos de extensão universitária, aproximando o ensino das realidades locais e promovendo a aplicação prática do saber. As acções vão desde o empreendedorismo comunitário à melhoria do desempenho escolar em comunidades rurais, mostrando que, quando o ensino superior se abre à sociedade, o impacto é imediato e visível.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) reforça essa visão no relatório Higher Education for Sustainable Development in Africa (Educação Superior para o Desenvolvimento Sustentável em África, 2023), defendendo que as universidades africanas devem tornar-se incubadoras de transformação social — comprometidas com a aprendizagem ao longo da vida, o desenvolvimento local e as parcerias intersectoriais. O documento Africa Education Transformation Framework (Quadro de Transformação da Educação em África, 2024) complementa esta ideia ao afirmar que a sustentabilidade educativa em África depende de um equilíbrio entre escola, universidade e comunidade.
Para que essa visão se torne realidade em Angola, quatro pilares são essenciais:
Diagnóstico partilhado — Identificar as necessidades reais com as comunidades, e não apenas sobre elas.
Co-criação e adaptação — Unir o saber científico e o conhecimento tradicional, respeitando a diversidade cultural e linguística.
Governança e recursos — Estabelecer estruturas e políticas que sustentem a extensão como missão institucional.
Avaliação e evidência — Medir resultados e comunicar o impacto de forma clara e acessível.
Modelos de sucesso já podem ser observados noutras partes de África, como na Universidade Egerton (Quénia) e na Universidade de Makerere (Uganda), onde os gabinetes de extensão comunitária integram projectos que unem educação, inovação e desenvolvimento local. O que estas experiências demonstram é simples: quando o saber encontra a comunidade, todos aprendem — e todos crescem.
Em Angola, o potencial é imenso. O país tem professores comprometidos, universidades com capacidade técnica e comunidades ansiosas por conhecimento útil. O que falta é uma articulação mais sólida entre as instituições de ensino superior, as escolas do ensino geral, os governos locais e as organizações sociais. Estender o saber é garantir que o conhecimento chegue a quem mais precisa dele — de forma prática, ética e transformadora.
Educar é estender quando o saber regressa à sala de aula transformado pela realidade. Quando a universidade aprende com a comunidade, o ensino ganha alma e o conhecimento torna-se acção.
A extensão é o caminho onde o ensino encontra a vida e o saber se torna serviço.