A Crise do Pensamento Num Mundo que Grita Informação

Vivemos tempos em que a informação se multiplica a uma velocidade vertiginosa, mas o pensamento parece mover-se em sentido contrário. Nunca se falou tanto, nunca se escreveu tanto e, paradoxalmente, nunca se compreendeu tão pouco. O mundo transformou-se num imenso altifalante onde todos têm voz, mas poucos têm escuta. Produzimos opiniões como se fossem ecos automáticos, reagimos antes de reflectir e confundimos ruído com conhecimento. É a era em que se lê apressadamente, se ouve com distração e se pensa quase por instinto.
Em Angola, essa realidade tem o seu próprio rosto. O país tem feito avanços notáveis na alfabetização e no acesso à escola, mas ler e escrever já não bastam. Falta-nos a capacidade de interpretar e analisar criticamente o que se lê e o que se ouve. Decifrar palavras é apenas o início; compreender o seu significado, questionar intenções e discernir contextos é o que verdadeiramente liberta. Quando a leitura não conduz à compreensão e a escuta não conduz à reflexão, o conhecimento torna-se uma sucessão de frases memorizadas, e não uma construção de sentido.
A Semana Global de Alfabetização e Informação Midiática convida-nos, todos os anos, a revisitar esse debate. A questão central já não é o acesso à informação, mas a capacidade de pensar sobre a informação. Vivemos imersos num fluxo constante de textos, vozes e imagens que competem pela nossa atenção, e é nesse excesso que o pensamento se perde. Talvez o verdadeiro analfabeto do nosso tempo seja aquele que, embora saiba ler, já não lê com profundidade — aquele que ouve, mas não escuta.
Confesso que, como autora, vivo esta inquietação de perto. Quando escrevo um texto ou um livro, sinto, muitas vezes, o impulso de encurtar cada parágrafo. Faço-o por receio de que as pessoas já não estejam disponíveis para a leitura demorada, para o encontro paciente com as ideias. Pergunto-me, às vezes, se as pessoas deixaram de ler — ou se deixaram de ler bem. Talvez o problema não seja apenas a falta de leitura, mas a falta de atenção, de entrega e de tempo interior para compreender o que se lê. Hoje, mal terminamos de ler um conteúdo, mal formamos uma opinião, e já partilhamos. Partilha-se antes de pensar, comenta-se antes de entender, julga-se antes de escutar.
A interpretação é o primeiro passo para recuperar essa profundidade perdida. Interpretar é compreender para além das palavras e dos sons; é perceber o contexto, a intenção e o silêncio entre as linhas. É o acto de ligar o texto à realidade e a fala à verdade. Um leitor que lê sem interpretar e um ouvinte que escuta sem compreender tornam-se reféns da superfície. A interpretação exige pausa, sensibilidade e curiosidade — virtudes cada vez mais raras num tempo que premia a pressa e a distração.
A análise crítica é o segundo passo — e talvez o mais urgente. É ela que transforma o conhecimento em consciência. Analisar é duvidar com lucidez, perguntar “quem diz?”, “porquê?”, “a quem serve?”. É reconhecer que toda a mensagem — seja escrita, dita ou transmitida — carrega uma intenção. Um cidadão que não analisa o que lê e o que ouve não é livre: é conduzido. E quando as sociedades perdem a capacidade de análise, perdem também a capacidade de decidir por si mesmas.
A Angola Aprende tem procurado, com determinação, responder a este desafio. Educar é, antes de tudo, ensinar a pensar. É ajudar o aluno a interpretar e a questionar, a ler com profundidade e a ouvir com discernimento. É isso que faz a diferença entre uma educação que forma executores e uma educação que forma cidadãos. A Angola Aprende acredita que cada sala de aula pode ser um espaço de pensamento livre — um laboratório de ideias, de escuta e de diálogo.
A alfabetização midiática é, hoje, o grande instrumento dessa libertação. Num país em desenvolvimento, onde o acesso à internet cresce de forma exponencial, é urgente formar cidadãos que saibam navegar com consciência nesse oceano de informação. Precisamos de leitores e ouvintes que compreendam as entrelinhas, que filtrem os discursos e que saibam distinguir o que é conhecimento do que é manipulação. A literacia crítica é uma nova forma de soberania.
A Constituição da República de Angola afirma que a educação deve promover o desenvolvimento integral da pessoa humana e o exercício da cidadania consciente. Mas essa missão só se cumpre quando a escola volta a valorizar a escuta e a reflexão. Quando o acto de ler e de ouvir recupera o seu sentido humano e o seu poder transformador.
A crise do pensamento não se vence com mais palavras, mas com melhores ideias. Não é a abundância de informação que nos fará evoluir, mas a qualidade da compreensão que somos capazes de alcançar. Num mundo que grita informação, pensar é o acto mais silencioso — e o mais revolucionário — que existe.
A Angola Aprende acredita que esse é o caminho: cultivar leitores e ouvintes atentos, formar mentes críticas e corações reflexivos. Porque compreender é o início da liberdade — e quem aprende a pensar, aprende a ser livre.